Na verdade não sei mais o que quero da vida. Passei anos querendo estudar mais e mais pra me tornar alguém interessante e agora não me vejo assim. Eu só seria interessante se soubesse muito de algo, se dominasse algum assunto ou soubesse fazer algo interessante. Hoje não me vejo mais como uma possível escritora, não me tornei a economista que queria ser e nem me aprofundei o suficiente na filosofia como queria. Entrei na universidade que queria, mas não alcancei o status de pesquisadora que faria com que todos esses anos de ciência fizesse algum sentido. Deixei pra trás minha família e vê-los tão pouco é muito ruim. Me deixa mais perdida do que já sou. Estar longe do porto é confuso às vezes. Mas apesar que não pretendo me prender a isso. As pessoas não são fixas, suas pernas e essa mobilidade tem que ser usada. Acho que devemos estar onde nos cabe a cada momento. Não pretendo me fixar em algo enquanto não tenho filhos. Quando estes existirem, terei que me fixar por algum tempo mais extenso em algum lugar, mais pelo referencial de pessoas e hábitos que é importante alguém carregar consigo e não quero privar os meus filhos disso. Mas, enquanto eles não existem, não há porque me prender a um solo e depois que eles se formarem também não vejo porque me prender a um solo. Se fixar é uma situação de conforto que prefiro não ter, pois acho que o conforto aniquila o que deveria ser atiçado. Bom, pelo menos isso me tranquiliza por hora. Andei pensando se não deveria voltar para meu ninho, para me sentir menos só, menos desanimada com os estudos, pois lá há minha família que espera muito de mim, que cobra meus resultados. Mas agora me sinto algo mais animada, agora, escrevendo, ouvindo um ótimo violão sendo destrinchado pelo Baden, agora me animo um pouco, pelo menos. Estou numa situação confortável aqui e talvez seja isto que está me incomodando. Tenho um bom emprego, perto de casa, numa cidade grande e riquíssima, moro numa casa ótima com pessoas lindas. É tudo correto demais, que já me define, já sinaliza que devo permanecer apenas. Antes, sem casa, passando aperto, eu me via com mais possibilidades de tentar coisas diferentes e a bagunça me deixava mais animada, pois sabia que precisava lutar. Agora consegui até a afeição momentânea de um artista de verdade, autêntico alimento. É tudo correto demais pra mim, dando certo demais e isso gera uma pressão imensa, de que tenho que manter o que conquistei e conseguir o que falta. Mas eu sei que não vou conseguir. Isso me desanima tanto. Ao mesmo tempo que deveria estar me deliciando com tudo, apenas cobro mais e mais de mim. Talvez não tenho perdido de todo meu sonho inicial de ser escritora. Quis continuar estudando pra ser boa escritora. Quero pesquisar para conseguir escrever com preciosidade. Esse foi o meu sonho desde os tempos do colégio e já tinha me esquecido dele. Como pude? Deixei a engenharia porque não se escrevia, quis ir pra economia pra saber bem quando fosse criticar as engrenagens do mundo, vim pra sociologia pra entender as pessoas se agrupando ou sendo agrupadas ou agindo por sua iniciativa. Tudo teve um objetivo maior. Como me deixei escapar dele? Procuro um amor porque não consigo me encontrar, por isso fico querendo alguém que me encontre. Em BH, em SP, não está neste ou naquele lugar, está onde eu estiver pois o que procuro carrego junto. Companhia é maravilhoso, boa companhia é demais, autêntica companhia é mais do que mereço. Mas é companhia, não mais que isso. Não quero dar minha vida pra alguém, quero apenas dividir minhas horas, o que já é demais. O meu rumo tem que vir de dentro de mim. Estou tão desanimada e perdida porque achei um conforto maior do que esperava. Minha natureza é terreno pedregoso, não terra roxa. Onde vim parar e como permanecer aqui? Obrigada por minha família estar bem e não precisar de mim, obrigada pelo bom trabalho, obrigada pelos amigos interessantes, obrigada pelas companhias maravilhosas! Obrigada por afastar os problemas para que eu consiga vencer com calma. É, tenho que vencer essa pra valer o tanto que recebo.
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